Tu ou você?
Cláudio Moreno
A ESCOLHA DO PRONOME não implica em maior ou menor intimidade
Na semana que passou, uma matéria publicada na ZH sobre as chances de sobrevivência do tu foi como um chute no formigueiro. Brotaram opiniões de todos os lados, de todos os vieses e de todos os calibres. Houve quem decretasse o fim de nosso pronomezinho de estimação, mas a maioria cerrou fileiras a seu favor, expressando a certeza (ou seria esperança?) de que ele nunca cairá em desuso. Provocado por vários leitores, vou esclarecer alguns pontos que julgo essenciais para compreender o problema.
1) O tratamento que o brasileiro dispensa a seu interlocutor depende de vários fatores, sendo dominantes o grau de intimidade e a posição em que ambos se encontram na escala social. No Português que falamos – no Brasil, friso bem, porque em Portugal o sistema é diferente –, funciona um sistema binário, muito simples: o tratamento ou é familiar, ou é cerimonioso. Se a pessoa com quem falo é meu amigo e meu igual, vou escolher livremente entre tu ou você; se me dirijo, porém, a um superior hierárquico ou a alguém que, por vários motivos, devo tratar com maior distanciamento ou cerimônia, recorro ao utilíssimo senhor, que pode substituir, sem desdouro, aquela parafernália de Excelências, Senhorias, Majestades e que tais. É claro que uma escolha inadequada de minha parte pode desagradar ao meu interlocutor, especialmente se o prestígio de seu cargo ou a importância social que ele julga desfrutar não forem levados em consideração.
2) Apesar de muita gente pensar o contrário, a escolha de tu ou de você não implica maior ou menor intimidade, como ocorre com o tu e o vous do Francês ou o tu e o usted do Espanhol. Nessas duas línguas, o uso do tu é um sinal de grande familiaridade, e lá os verbos tutoyer e tutear, respectivamente, ainda conservam toda sua força original – a mesma que tinha o nosso tutear, no tempo em que nosso idioma opunha o tu familiar ao vós cerimonioso, empregado tanto para o plural quanto para o singular (“Ave Maria... bendita sois vós entre as mulheres”). Se algum dia houve diferença entre tu e você, hoje as duas formas são equivalentes: numa praia da Bahia, é bem provável que a mãe use você para falar com seu recém-nascido; nas barrancas do Uruguai, no entanto, é quase certo que ela vai preferir chamá-lo de tu – e não conheço grau de intimidade maior que o de uma mãe com seu bebê.
David Coimbra relata um incidente em que o governador Collares reagiu quando um repórter o chamou de tu, desconsiderando o cargo que ocupava: “Tu, não; senhor. Eu sou governador do Rio Grande do Sul”. Pois podem apostar que ele teria reagido da mesma forma se o jornalista tivesse empregado você, pois o desrespeito seria do mesmo quilate. Não é, portanto, uma questão de etiqueta, já que um vale o mesmo que o outro; como vamos ver na próxima coluna, usamos o tu como um traço regional – ou como explicou, meio exagerado, um de nossos leitores: “Temos de manter nossa tradição, professor! Aqui se fala tu; brasileiro é que fala você!”.
Aproveito para comunicar ao amigo leitor que estarei hoje na Feira do Livro, às 19h, autografando o meu mais novo livro, Noites Gregas, com um precioso prefácio de Mário Corso.
Sábado, 7 de novembro de 2015.
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